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A Chuva de Granizo

Michelly Gassmann Autora

Melissa guardava algumas poucas memórias do processo de divórcio dos pais. No dia em que assinaram os papéis, uma chuva de granizo assolou a região, deixando um rastro de prejuízos por onde passava.

No dia seguinte Melissa e a mãe chegaram à casa de Inês, malas a tiracolo. Melissa agarrava sua boneca preferida sem entender muito bem por que tinham que sair de casa e porque seu pai não estava junto. Sua primeira lembrança ao chegar na casa foi a de encontrar Inês como de costume em seu jardim, que havia sido parcialmente destruído pelo granizo.

A cena era de partir o coração. Flores pelo chão, folhas cortadas, galhos e vasos quebrados. Terra espalhada pelos canteiros, parecia que nenhuma planta havia escapado à violência da chuva. Nos cantos do jardim junto aos muros, ainda havia gelo acumulado do dia anterior. Inês estava agachada com uma sacola grande de plástico, retirando gelo com as mãos e recolhendo pedaços de vasos, galhos e folhas quebradas.

Um pouco mais tarde, a menina voltou ao jardim e ficou observando a avó separar alguns vasos de planta. A maioria ela limpava, tirando as folhas quebradas e colocava de volta no lugar. Apenas uma ou duas vezes ela se demorou mais com um vasinho na mão, suspirou e jogou na sacola.

– Vovó, por que algumas plantas você está jogando fora e outras não? Estão todas quebradas… – perguntou a menina intrigada.

– Se eu pudesse não jogaria nenhuma fora, porque as plantas às vezes precisam de uma segunda chance. A maioria vai se recuperar, mesmo estando bastante danificadas…. Veja.

Ela se levantou e pegou um dos vasos mais próximos:

– Esta plantinha é uma “beijo-pintado “, uma florzinha branca muito delicada, mas muito resistente também! Ela precisa de muito cuidado, tem que ser regada todos os dias. Se ficar dois dias sem regar ela murcha inteira e você pensa que ela morreu, mas é só regar de novo que ela se recupera totalmente em poucas horas. Ela sofreu bastante, mas eu tenho certeza de que ela vai se recuperar e florescer de novo.

Ela tomou a menina pela mão e a guiou até um dos canteiros.

– Esta que parece um cacto se chama Aloe Vera. Ela também ficou machucada, mas só superficialmente. Essa plantinha tem um gel que ajuda a curar muitas coisas e ela vai se curar também, pois é uma planta madura e resistente por natureza.

Inês apontou para as begônias embaixo do Pergolado:

– As begônias tiveram sorte, a madeira da cobertura as protegeu das pedras maiores. Se você olhar de longe vai pensar que não sofreram nada, continuam floridas e bonitas, mas se olhar de pertinho vai ver que elas estão um pouco machucadas também, perderam algumas flores e galhinhos, mas também ficarão bem.

Ela então abriu o saco plástico e retirou um vaso pequenininho onde só havia terra e pedaços de galho:

– Aqui havia uma Torenia, uma florzinha pequena e delicada. Ela ainda era uma mudinha e não teve a menor chance, as pedras acabaram com ela. Eu não posso fazer nada por essa aqui…

E colocou de volta no saco.

– Vovó, você ficou triste quando viu seu jardim assim? – quis saber a menina.

– Fiquei sim, Melissa. E chorei bastante pelas minhas plantas. Mas depois eu saí para ajudar a vizinha, pois na casa dela a chuva quebrou parte do telhado e a casa ficou alagada. Outras pessoas tiveram prejuízos maiores ainda, com janelas quebradas e carros amassados. Mas sabe de uma coisa? São coisas que podem ser trocadas e consertadas. Eu não tenho vergonha de chorar pelas minhas plantinhas pois cuidei de cada uma delas com amor. Reguei, podei, adubei, acompanhei o crescimento como se fossem minhas filhinhas. Eu tenho o direito de chorar por elas.

A avó ficou em silêncio por um momento e olhou à sua volta. Em seguida disse:

– As plantas são como as pessoas, Melissa. Eu tive quatro filhos. O primeiro se chamava Fernando e morreu quando ainda era bebê. Ele era como essa Torenia, pequeno e frágil. Sua tia Marisa é como o Aloe Vera, madura e forte, a tia Lurdes é como as begônias, de longe parece estar sempre perfeita. Sua mãe é como o “beijo-pintado”. Hoje ela não está bem, mas ela é mais forte do que parece. Hoje meu coração chora por ela, mas ela vai ficar bem.

Trecho do livro : “O Jardim de Inês”

https://www.amazon.com.br/Jardim-In%C3%AAs-Michelly-Gassmann-ebook/dp/B09FRHF69K